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Pequena biografia de Bertha Lutz

Ainda bem que aquele jornal carioca tinha um colunista machão que, em 1918, escreveu um artigo dizendo que as brasileiras não sofreriam nenhuma influência das lutas pelo direito ao voto para as mulheres; lutas que explodiam, então, na Inglaterra.

Ainda bem porque, se não fosse o artigo machista, talvez Bertha Lutz não tivesse mergulhado com tanto ardor na iniciativa de reunir as mulheres brasileiras em movimentos sufragistas nacionais. Foi essa atitude que fez dela a maior líder na luta pelos direitos políticos do sexo feminino no Brasil.
Bertha Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo, capital, no dia 2 de agosto de 1894, filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista pioneiro em Medicina Tropical, Adolfo Lutz (com ela, na foto).
Educada na Europa, Bertha tinha apenas 17 anos quando descobriu os movimentos organizados de mulheres na Inglaterra, as sufragistas pioneiras, lideradas por Emmeline Pankhurst e suas filhas, Sylvia e Cristabel.
Berço do feminismo, a Grã Bretanha era o país natal de Mary Woolstonecraft, considerada a primeira feminista da história, nascida no século XVIII e mãe da autora de “Frankstein”, a escritora Mary Shelley.
Bertha estudou na Inglaterra e na França, formando-se na Sorbonne em Ciências Naturais.
Só voltou ao Brasil em 1918, prestou concurso para o Museu Nacional e se tornou a segunda mulher a trabalhar como funcionária pública no Brasil.
Foi aí que apareceu aquele artigo machista no jornal carioca e o sangue de Bertha ferveu.
Em 1919 ela fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, de onde acabaria derivando uma organização poderosa: a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, da qual ela foi presidente e que liderou a campanha sufragista (pelo direito de voto feminino) em nosso país.
Mas Bertha foi mais longe. Em 1922 foi eleita vice presidente da Sociedade Panamericana da Liga Internacional das Mulheres Eleitoras, em Assembléia realizada nos Estados Unidos.
O escritor Lima Barreto, machista como a maioria dos homens daquela época, ficou incomodado com a projeção de Bertha na imprensa e também na ciência. Em 6 de maio de 1922 escreveu na então badalada revista Careta: “Agora temos a faladora Bertha Lutz que foi aos Estados Unidos, em Baltimore, creio, dizer que as moças do Brasil se dedicam a ensinar crianças. Grande novidade! Uma coisa, porém, não disse e é que as moças do Brasil se fizeram arautos do feminismo burocrático. O que elas querem é ser escriturárias, mediante concursos duvidosos, em que entram influências ‘brunísticas’, para que tirem os primeiros lugares. Isto é o feminismo à Bruno Lobo, quando não é à Carlos Chagas”
Mas Bertha continuava com sua brilhante atuação política em prol das mulheres. Em 1929 participou da criação da União Universitária Feminina.
Foi só dez anos depois do ingresso das brasileiras na Liga Internacional das Mulheres Eleitoras que um decreto lei do presidente Getúlio Vargas estabeleceu o direito das mulheres de votarem e serem votadas.
Bertha foi eleita suplente na Câmara Federal e, em julho de 1936, assumiu a cadeira de deputada, com a morte do titular, Cândido Pereira.
Como deputada, ela propunha mudanças na legislação do trabalho da mulher e do menor, licença maternidade (que só conquistamos nos anos 1990), redução da jornada de trabalho (que era de 13 horas) e – algo que quase um século depois ainda não temos – igualdade salarial.
Mas a alegria durou pouco. Em novembro de 1937 o presidente Getúlio Vargas se tornou ditador e fechou o congresso. Bertha perdeu o mandato mas continuou em seu trabalho público como chefe do setor de botânica do Museu Nacional, cargo que ocupou até sua aposentadoria em 1964.
“As pessoas respeitavam Bertha Lutz pelo que ela era dentro e fora do Museu Nacional. Ninguém mexia com a Dra. Bertha Lutz”, disse certa vez Esmerladino de Souza, que trabalhou como assistente dela.
Atuante na política e na ciência, Bertha realizou inúmeras descobertas na área de zoologia e botânica, além de preservar a herança do trabalho realizado por seu pai, brilhante cientista como a filha.
A ONU estabeleceu o ano de 1975 como Ano Internacional da Mulher e Bertha, a convite do governo brasileiro, integrou a delegação do nosso país no I Congresso Internacional da Mulher, que aconteceu na cidade do México e reuniu as mais importantes lideranças femininas do planeta. Tinha 81 anos e este foi seu último ato público em defesa dos direitos das mulheres.
Bertha Lutz morreu no ano seguinte, 1976, em 16 de setembro.
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